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saudade

Ainda é cedo e lá fora a chuva já toma conta da rua, e do bairro e de toda a cidade. Dias assim me deixam pensativo. Dias como esses, me lembram de algo que não vivi, algo que não fiz, minhas vidas passadas, se é que já tive alguma. Sei que em meio ao barulho da chuva vou aos poucos montando um quadro de imagens fictícias e situações imaginárias que poderiam acontecer. E é assim, como um ritual: passo pela cozinha e faço meu café. E parece que enquanto eu sigo pela rotina do meu dia triste, a chuva aumenta. Com meu café em mãos, digo com a garrafa e um copo de café em mãos, vou para minha sessão de nostalgia e reflexão. Alguns meninos já correrem pela rua, fazendo barulho e chutando uma bola velha de capotão. Desligo-me por completo de mim mesmo e posso sentir-me lá fora, sentir a lama em meus pés, sentir a água da chuva banhar-me, e o vento violento soprar em meu corpo. Sinto-me como aqueles meninos que brincam na frente da minha casa. E sinto saudade, e tomo café. E lembro de um velho retrato, uma fotografia tirada numa copa qualquer. Ah essa foto... ela é a culpada de todas as minhas tristezas. Não, não posso afirmar isso. Por que naquela foto, estamos: eu e ela, bêbados e felizes. Bêbados um do outro e de cerveja também, e felizes por nós, porque não? Uma camiseta do Brasil, a alegria do título, e eu não sabia ser mais nada, a não ser, ser feliz. Não precisava de mais nada. Mas e hoje, o que posso dizer de hoje? Resta o retrato, resta a lembrança, a chuva e aquela vontade de nunca ter partido. Achando que se tivesse ficado mudaria muita coisa. Achando que poderia mudar o destino dela e o meu também. E ela? Ela com certeza lembra também do retrato. E com certeza, onde ela estiver ela também pensa em como fomos felizes e como fui um tolo por acreditar que o meu futuro não combinava com o dela. Ela já não sorri, já não chora, já não conversa comigo. Mas eu sei e ela também sabe que o nosso flash de felicidade passou. E o tudo o que passou não importaria se ao meio dia, nesse mesmo domingo, com essa mesma chuva, reatássemos todos os nossos laços. Mas já é impossível, enquanto ela estava viva, sempre restava uma esperança de poder acordar só mais uma vez ao seu lado. Agora, recorro ao retrato para lembrar de alguns momentos em que eu acreditei poder voar. Alguns momentos que ficaram para sempre em minha memória. Acho que ela me mandou essa chuva. Acho que ela tem mandado toda espécie de felicidade que anda batendo minha porta. Por que no fundo, fomos felizes. Eu a desejava assim e ela também me queria assim... E tudo o que acontecer, e tudo o que eu serei... tudo, será apenas história.

28/11/2005 Publicada por _uNdeRtaKer_

  
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